Dizem que samba bom se faz com tristeza e amor. E um pouco de drama. Acho então que a gente daria um samba meia-boca. Daqueles chicletinhos, cheios de clichê. Daqueles de amor que passa. Pra ser samba bom tem que ser amor de verdade. Amor de grandes histórias, de arrancar o juízo, a cabeça, a roupa. Amor daqueles de se jogar de pontagulha, de alma, corpo e todos os elementos. Você nunca foi capaz de pular do seu pedestal, de largar seu medo estúpido, de ser homem e tomar uma decisão. De jogar na minha cara a verdade, de ir e não olhar pra trás. Você sempre voltou que nem um cachorrinho pra mim. Sempre ia e voltava tantas vezes que não deixava que a gente vivesse qualquer coisa que pudesse existir. Você acendia todas as fagulhas e jogava água morna em todas elas. A gente podia ser um samba meia-boca, mas samba meia boca se faz com um punhado de paixão e desilusão ou declaração de amor. Mas nem isso a gente pode ser. Você nunca abriu a boca pra dizer uma vírgula de sinceridade, nem aquela alimentada por alguma bebida quente. Claro. Você era bom demais em seu mundo para esboçar qualquer reação. Você precisava de uma platéia para seu ego se mostrar e assim seguia na dúvida eterna de brincar de vai-e-vem. A gente não dá nem um samba ruim de uma frase só. Para isso alguma peça de roupa deveria ser arrancada ou ao menos uma traição anunciada. A gente definitivamente não daria samba algum. Talvez porque eu sempre joguei toda a culpa em você. Talvez por eu nunca ter enxergado as mentiras e verdades que você dizia para me proteger e não me magoar. Talvez porque foi melhor assim e nós dois tínhamos medo. Ou talvez eu devesse tentar compor mesmo assim. Algum verso de drama, pelo menos. Algum verso pra contar o que um dia foi uma tentativa de amor.
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
Verão n° 14
Os cabelos dela cintilavam ao vento, que tecia cada mecha em quase cachos, embaraços e ondulações, dando a Melissa uma aparência selvagem e estranhamente bela. Sempre descalça, em sua bicicleta vermelha, ela adentrava o bosque e cada vez mais fundo em meu coração. Havia nela uma beleza ingênua que sumia assim que sorria. Seu sorriso era malícia pura, como de quem sabe o poder que tem, e isso ela realmente tinha de sobra. Melissa é o tipo de garota que você não esquece quando vê, seja por seus cheios e longos cabelos castanhos, pelos olhos ferozes ou simplesmente pela mágica que exala, como se o Universo parasse a cada vez que ela saia de casa. O sol sempre parecia luzir mais forte, as flores coloriam-se para que ela apanhasse uma delas e prendesse no cabelo e até os dias mais cinzentos pareciam palco para que os vestidos rodados e a velha bota marrom fossem as estrelas. Ah, Melissa, não sabes que o mundo parava quando resolvia trocar duas palavras comigo? Quando dançava de olhos fechados na varanda de casa, quando no fim da tarde pulava no rio e saia encharcada com os gritos de sua mãe? Após trinta dias de sonhos e suspiros de melissas e por Melissa, consegui enfim arrancar um beijo, que marcou toda minha infância, e ainda perturba vez em quando minha mente o sorriso sacana de Melissa andando de bicicleta, nas tardes do verão de 86.
PS: Aquele foi e será um dos melhores verões de minha vida, no sítio dos meus avós em Sapoti. Quanto a Melissa, se mudou e em 87 senti o vazio de minha primeira desilusão amorosa. A partir dai, minhas férias de verão nunca mais foram tão coloridas. Não sei para onde foi e nunca mais tive notícias dela. Ah, o amor e seus desencontros.
Contra-capa
Voltei a ler aquele livro que você me deu, não sei se por saudade ou por nostalgia. Aquelas suas palavras doces escritas em letras engraçadas e meio que garranchos disfarçados, que tanto reclamei e insisti em te dar caligrafias - todas esquecidas junto com as palavras cruzadas arrancadas do jornal de domingo- passeiam em um passado recente de memórias sussurradas: "É pra te ver crescer por dentro e por fora, minha menina, Pra te lembrar de ter fé e te trazer sorriso. Do teu amor pra vida inteira, Edu." Ah, uma vida inteira acho que se passou desde o livro, agora meio empoeirado, desde nosso amor, desde sua dedicatória, desde que tínhamos 16 e achávamos que primeiro amor durava para sempre... Hoje os brancos já começam a cobrir seus cachos onde meus dedos enroscavam e passeavam em cafunés intermináveis. Hoje, aquela menina que fui se perde entre jornadas de trabalho, reuniões de pais e professores, cansaços constantes e aquele livro que você me deu, que voltei a ler por saudade de ser sua menina, quando a gente achava que o amor era andar de mãos dadas no fim da tarde na pracinha, quando a gente achava que primeiro amor durava para sempre, e pelo visto, acho que a gente estava certo quanto a isso. Pra que você saiba que eu cresci com muita fé e muitos sorrisos, graças a você, ao nosso amor e aos nossos filhos, de sua mulher e eterna menina, Carol.
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
Já faz um certo tempo desde que coloquei meus olhos em seus doces olhos verdes. Eles meio que me hipnotizam, não sei se por serem tão gentis em rudes músculos ou se por você ser tão misterioso assim. É a sua solidão estampada em cada gesto e cada palavra, como se você guardasse lá no fundo toda a sua doçura, para que não transpareça a ninguém seu coração. É toda a sua sinceridade escancarada, ainda que não falada. É sua tentativa de se esconder de todos, ou de mim, ou talvez de você. É a sua invisibilidade que faz com que você não seja notado por ser diferente e essa mesma diferença que me faz te notar todos os dias em que espero você aparecer. É uma não explicação que não cabe a mim tentar explicar, apenas olhar seu par de belos olhos verdes e me encantar ainda mais por cada pedaço de você.
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
Amor à sangue quente
Calo e sinto queimar o desgosto da palavra engolida, o rasgo garganta abaixo pelo soluçar de letras que vem e vão, nunca passando do toque da língua entre os dentes e o céu da boca, nunca adquirindo forma. Pensei em pedir para você ficar, em te falar os engasgos acumulados, te chamar de uma infinidade de coisas ruins, te dar até uns gritos ou ao menos bater a porta na sua cara como fazem as pessoas histéricas (ou não). Podia ter, sei lá, chorado, mandado você ir pro inferno, virado as costas e comido uma panela de arroz doce, ter te dado um tapa na cara tipo novela mexicana, o que aliás sempre passa um pouco pela cabeça das pessoas na hora do drama. Mas não teve dramas. Foi um silêncio dentro e fora de mim, silêncios impreenchíveis, que nem palavra, trilha sonora ou barulho dos carros lá fora daria conta. Silêncio de não dar conta, de fugir todo o alfabeto. Queria ter te dado um beijo de despedida, um afago de amigo mesmo, um salve pelos tempos vividos, meio que de recompensa. Mas não. Fiquei parada como quem olha pro nada, sem ao menos me importar. Sem aquela sensação de posse perdida, sem aquele velho sorriso leve que se mostra por tudo. Sem ter nem te dado um tchau ou até logo, sem aquele clichê de quero que você seja feliz ou foi bom enquanto durou. Não tive palavras. Não tinha palavras nem poderia. Aquele estranho que saiu pela porta da sala já não significava mais nada. Nem fantasma de passado, nem boas memórias, nem tampouco más lembranças. Só a sombra do que um dia foi um homem. Só a capa de um assassino de amores mutilados, sem sentir culpa alguma do sangue em suas mãos.
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